Prefácio:
A Escrita como Inflexão de Vida
Existe um tipo de escrita que não nasce do desejo de publicar, mas da necessidade de compreender. É uma escrita que não procura adornar a experiência, mas decantá-la — até que, sem alarde, ela se torne transmissível. Talvez este livro pertença a essa categoria.
Acompanhei o processo que levou a esta obra por vias que escapam ao roteiro tradicional de formação. Não se tratou de um plano editorial nem de um projeto pedagógico. O que se viu, lentamente, foi o desdobramento de uma crise, a organização de um colapso interior, e a posterior restituição de sentido. Tudo isso foi acontecendo sob camadas de silêncio, hesitação, tentativa.
Houve um momento em que percebi que algo estava sendo gestado. Não me foi anunciado. Apenas intuí, pelo modo como o autor passou a lidar com a palavra — com o tempo da palavra, com o pudor de enunciar, com a recusa de dramatizar. Era a linguagem se tornando forma de escuta. Era o gesto de escrever como quem cuida.
Léo Pimenta não escreveu VGCP como um exercício de exposição pessoal nem como um manifesto. A linguagem que ele desenvolveu é mais próxima da oferenda do que da tese. E talvez por isso sua escrita tenha o poder de atravessar o leitor sem esforço. Porque não impõe. Convida.
Gabriel, esse personagem em dissolução e retorno, representa não um indivíduo, mas um arquétipo sutil do sujeito moderno diante da falência de suas conquistas. Há algo profundamente contemporâneo em sua trajetória — o colapso da performance, o esgotamento da imagem, a solidão entre aplausos —, mas também há algo intemporal: a busca por inteireza, por presença, por uma forma de vida em que o olhar retorne a si sem medo.
Esse tipo de elaboração só é possível quando se abandona a ideia de que escrever é dominar. Léo não escreveu para organizar o mundo. Ele escreveu para sustentar o intervalo entre o que ruiu e o que ainda não nasceu. Esse intervalo — tão pouco tolerado em nossa época — é o coração pulsante deste livro.
Digo isso não como um observador neutro, mas como alguém que acompanhou o processo formativo onde essa escrita se forjou. Não há método ou doutrina aqui, mas há uma consequência visível de anos de cultivo interior, de fricção entre palavras e vivências, de hesitação diante do que não podia ser apressado.
Este livro é uma travessia. Não no sentido épico, mas no sentido mais estritamente humano: o de alguém que aprende a sustentar o próprio vazio até que algo verdadeiro possa ser dito. E esse dizer, por mais discreto que seja, nos alcança.
Leo Imamura